O começo da história muita gente já conhece: na década de 80, um jovem da periferia do Recife convidou dois amigos para formar uma banda de rock, sem dinheiro para comprar os instrumentos e sem saber como tocá-los. Nascia a Devotos do Ódio, uma das maiores bandas pernambucanas. Agora em fevereiro, o trio punk-rock-hardcore do Alto José do Pinho completa vinte anos de carreira, sem perder o espírito contestador e planejando muitas ações. Neste sábado, a Devotos faz uma prévia da festa de aniversário no festival Rec-Beat. Cannibal, Cello e Neilton sobem ao palco montado no Cais da Alfândega com Clemente, vocalista da banda Inocentes (SP), e Zé Brown, da Faces do Subúrbio. No repertório, músicas do novo CD (Flores com espinhos para o Rei) e clássicos da banda, como Punk Rock, Hardcore, Alto José do Pinho. Com Clemente, eles tocam Garotos do Subúrbio, Morrer aos 18 e Rotina. O grupo ainda realiza mais duas apresentações durante o Carnaval, uma no Pólo Ibura, no domingo, e outra no Nascedouro de Peixinhos, na segunda-feira. Desde os primeiros shows, eles procuraram promover ações sociais, como a arrecadação de alimentos, eventos musicais como o Natal nas Alturas e o Rock da Criança, além de palestras, oficinas e rádios comunitárias no Alto José do Pinho, comunidade do Pilar, Ilha de Deus e Muribeca. Neste sentido, a principal meta da banda em 2008 é conseguir apoio para a construção da sede, na qual as oficinas poderiam ser realizadas com mais regularidade. Hoje, a Devotos tem um estúdio de gravação no Alto Zé do Pinho, montado com o que conseguiram economizar (o dinheiro é dividido em quatro partes, três para cada integrante e uma para a banda). Com o dinheiro que receberam da BMG, Neilton comprou a guitarra dos sonhos, uma Gibson, mas ainda faz adaptações nos instrumentos e constrói amplificadores com outras três pessoas. Cannibal também apresenta o programa Estereoclipe, exibido aos domingos no Canal 14. Após duas décadas de palco, o grupo percebe algumas mudanças na relação do artista com o público. “Naquela época, o jovem ia para o show ver a banda ao vivo, conversar com a gente. Hoje, com a Internet, nem sempre isso acontece. O público hoje é mais adulto, quem está ligado aos temas sociais. Muitos jovens de hoje só querem se divertir”, avalia Cannibal, ao mesmo tempo em que reconhece que a Internet é uma grande ferramenta para se comunicar com o fãs da banda, jovens ou não. O público que comparece aos shows da Devotos é fiel, formado por antigos fãs e jovens que se identificam com a proposta da banda. “Cruzamos tantos modismos sem nos deixar influenciar, que acabamos criando uma identidade forte. A Devotos só acaba se morrer um dos três”, avalia Neilton. Mesmo assim, a banda ainda se apresenta pouco em Recife. Durante o mês de aniversário, que ainda coincide com o Carnaval, apenas as duas apresentações do Rec-Beat e a da Prefeitura do Recife foram programadas. Para Cannibal, há uma falha na atenção dos produtores e gestores aos músicos. “Em oito anos de descentralização do Carnaval, a gente só teve um palco para tocar, no Alto José do Pinho. Já pensei que era porque a Devotos não tinha um som regional, mas vejo que acontece a mesma coisa com outras bandas de outros estilos”. Ele cita como exemplo o caso da cirandeira Lia de Itamaracá, Patrimônio Vivo de Pernambuco, que recentemente pediu a Celpe que religasse a luz de sua casa, em entrevista no programa de Samir Abou Hana, exibido na TV Universitária. “Na ciranda não aconteceu uma renovação como na rabeca, o que vai acontecer quando Lia se for? Ninguém procura saber como está o artista que leva o nome de Pernambuco para o exterior. Os cursos e palestras aqui são mais para produtores, que podem trabalhar com muitas bandas, e não para o músico”. Para comemorar os vinte anos de intensa atividade, a banda prepara a gravação de um CD ao vivo este ano, no Alto José do Pinho, com os grandes sucessos da banda. O show ainda não tem data definida, mas o grupo adianta a lista de convidados. Além de Clemente e Zé Brown, participarão do show o cantor Lirinha, do Cordel do Fogo Encantado, a baiana Pitty e Adilson Ronrona, vocalista do Matalanamão. O projeto recebeu o incentivo da Petrobras. A Devotos também busca recursos para gravar um documentário comemorativo em DVD, que será o primeiro da banda. Voltar
| |||