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31/1/2008 Filhos dos anos do “agora-posso-tudo”
Fonte: Jornal do Commercio

A década de 1980 foi de abertura para a América Latina, com o fim da maioria das suas ditaduras. Nunca mais o medo do fardão, a obrigação de cantar o hino nacional com o peito vazio e outros nacionalismos que só escondiam uma situação política de opressão, de cidadania insustentável. Ao contrário dos seus vizinhos, o Chile demorou para sentir esses novos ares. Depois de 27 anos no governo e uma trilha incontável de assassinatos e perseguições nas costas, o general Augusto Pinochet sai do poder em 1990 e entra para a história como um dos líderes menos carismáticos que a rica galeria de ditadores do nosso continente deixou como herança.

O adeus da era Pinochet renovou a própria idéia que o povo do Chile tinha de si mesmo. Liberdade traz excitação, a maravilha do agora-posso-tudo, que foi expressa em forma de novos cadernos culturais, gente com sangue novo escrevendo, criando bandas e querendo construir uma nova cultura (ou melhor história) chilena. Foi nesse período de abertura que a banda Panico, atração de segunda-feira do Rec-Beat, começou a se formar.

Os primeiros passos foram durante um auto-exílio, na Europa. Mais precisamente em Paris, cidade onde o vocalista travou os primeiros contatos com os outros integrantes da sua gangue. “Eu morei na França durante vários anos e foi lá que eu conheci Caroline, que se tornaria a nossa baixista. Juntos, nos estabelecemos no Chile no começo dos anos 90 quando a democracia estava dando os seus primeiros passos. Foi nesse período que chegaram os outros integrantes e o Panico começou. Eu me lembro que aqueles anos foram muito intensos, todo mundo em Santiago estava mexendo com arte, tocando em alguma banda, mas sempre misturando questões artísticas e políticas. Nessa época, a gente não se importava em vender discos, mas em trazer um ponto de vista novo para a cena local”, lembrou Edu.

Cada país tem seu clichê e clichês equivalem a expectativas. De uma banda chilena, a gente sempre espera alguma latinidade, um quê de “capim cubano”, um “muchacho” aqui e outro ali... É o chamado tropicalismo. Esse estereótipo, sobretudo, é interessante para consumo externo. A pressão de seguir a tradição fez com que esse mesmo Chile fosse o berço, nos anos 1990, de um movimento literário chamado McOndo. Os escritores Sérgio Gómez e Alberto Fuguet decidiram provar que a América Latina não era só como na cidade Macondo, criada por Gabriel García Márquez, onde a fantasia se travestia de banalidade - afinal, estamos abaixo da Linha do Equador. Mas o Chile não era típico, nem a terra de um realismo maravilhoso, proclamavam esses autores. A metrópole Santiago pós-Pinochet era também de um realismo virtual.

“Eu diria que, para algumas pessoas, uma banda latino-americana tem de seguir determinados tipos de som. As pessoas sempre vão lhe associar a salsa, a reggaeton ou qualquer outro clichê andino... Mas no final das contas, somos todos iguais. O que a gente pensa em relação à cultura asiática é provavelmente um clichê também. Como Fuguet e Gomez, nós tentamos a princípio também quebrar esse clichê latino. Agora, não nos importamos mais com essa história. É importante para nós o contato com a cultura latina, o que fazemos com o uso de percussão latina e também mantemos o espanhol em nossas letras, misturando-o com o inglês”, ressaltou o vocalista.

O uso da cultura latina pelo Panico é feito de forma irônica – “a ironia é parte da história do rock’n’roll, o que gostamos é de lançar mão da ironia, por isso usamos o espanglês (a mistura do inglês com o espanhol) na nossa música”. Apesar das raízes chilenas, desde 2001 que os integrantes do Panico vivem na Europa e estão prestes a lançar seu terceiro álbum europeu. “É natural esse intercurso, a América Latina tem um link óbvio com a Europa”, destacou Edu.

Quem for conferir a banda chilena na próxima segunda-feira, vai se deparar com um grupo que parte do rock para inúmeras outras viagens musicais. No entanto, é preciso que elas sejam sempre dançantes. Essa é a única regra. “Nossos dois últimos discos são orientados para as pistas de dança, mas nossas influências vêm de todos os lugares. Pessoalmente eu sempre me interessei no underground do rock’n’roll e na new wave. Sou muito influenciado pelo som de Nova Iorque dos anos 80 e pela garage music dos anos 60. Mas eu também gosto de música que não vem do rock, um monte de coisas latinas, eletrônicas e de jazz”, listou Edu.

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