Às três horas da manhã de terça-feira, quem esteve diante do palco do Rec- Beat no Recife antigo pôde acompanhar um rock de primeira linha feito pela banda Pânico. Criada no Chile em 1992, o grupo está radicado na Europa já há algum tempo. No Chile, eles fizeram carreira, lançaram diversos álbuns, freqüentaram o mainstream, mas, para quem vê o show, fica óbvio que o lugar deles é mesmo na Europa. Tamanha a afinidade com a cena indie atual, eles já foram convidados pelo grupo escocês Franz Ferdinand para abrir um concerto. O som do grupo sofre mesmo bastante influência do indierock britânico, de bandas como Arctic Monkeys e afins. Porém seus integrantes têm um lado mais sombrio, que lembra os primórdios da banda The Cure. Essa característica permite a eles aliar à batida mais pop elementos góticos, como pesados sintetizadores a riffs de guitarras que abusam de efeitos, timbres e de sonoridades dissonantes. E é exatamente essa influência do chamado rock gótico que parece ser o grande trunfo da banda cuja origem remete ao ano de 1992. "Neste ano, quando abandonei o curso de história da arte, em Paris, eu e a Carolina (baixista francesa) decidimos morar no Chile. Lá, encontrei uma cena independente bastante forte. A banda se formou logo nos primeiros meses e chegamos a ter até um selo próprio voltado a punk e eletro", conta o vocalista Eduardo, de 33 anos, que aos três foi morar na França, mais precisamente em Paris, devido "àquela velha história dos pais fugindo do regime de Pinochet". Além de Eduardo, o grupo é composto por Carolina (baixo), Memo (guitarra), Seba e Squatt (bateria e sintetizadores). Sete anos no Chile foram suficientes para dar ao grupo maturidade musical para rumar para a Europa. "O nosso som mudou bastante, antes éramos mais punk, hoje tem mais eletro. Essa opção foi natural e percebo nosso som afinado com aquilo que está sendo feito na Europa hoje. Além disso, o mercado de lá está todo articulado, ao contrário do mercado da América Latina. As bandas daqui não circulam por outros países. Vejo isso com preocupação, pois a única possibilidade de a cena existir é ela ser mais aberta", analisa o vocalista. Cenas indie à parte, o público do Recife percebeu do que se tratava o som da banda, aplaudiu bastante, e deixou o lugar, já às 4h30, com uma boa impressão do que há de novo no rock’n’roll. Som raiz Um dos grandes méritos do Rec-Beat é mesmo a diversidade do palco e a qualidade da grande maioria das atrações. Ontem, antes do show de encerramento com a banda Pânico, teve o samba competente do Trio Pouca Chinfra e a Cozinha, um grupo formado por 11 integrantes, de todas as idades, que toca clássicos do samba. Logo após, o grupo alagoano-carioca Fino Coletivo seguido do inusitado grupoMetaleiras do Pará - trupe de três ex-policiais militares paraenses aposentados, com exceção de Pipira do trombone que ainda se encontra por volta dos seus 40 anos. No cardápio musical, composições próprias em diversos ritmos: carimbó, siriá, mambo, lambada e até surf-music. Outras atrações da noite foram a banda paulista Firebug e o guitarrista canadense, radicado em Los Angeles, Chris Murray. Com um ska harmônico e muitíssimo agradável aos ouvidos, a banda foi, de todas as que tocaram no Rec-Beat, uma das que mais conseguiu interação entre Carnaval, praia, público, horário e música alternativa. Com o segundo álbum recém-lançado pela Tratore, batizado de "On The Move", eles já construíram um nome sólido na cena do gênero em questão que, se não é explosiva, é bastante abrangente. Já Chris Murray é um dos pioneiros do mundo em gravar discos de ska em formato acústico. Hoje, como artista já estabelecido, ele roda o mundo divulgando seu trabalho fazendo uso de uma espécie de movimento universal que rege alguns ritmos. "É incrível que em praticamente toda parte do mundo existe uma cena de ska", diz ele, lembrando que foi o ska que deu origem ao reggae e não o contrário. Voltar
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