O pessoal deve ter ficado pregado depois de três dias de intensa folia. No quarto dia de Carnaval podia-se caminhar à vontade no Bairro do Recife, inclusive na Rua do Bom Jesus, mesmo com blocos indo e vindo o tempo inteiro. O Marco Zero também não recebeu tanta gente quanto na sexta e no domingo. No Paço da Alfândega, onde aconteceu o último dia do Rec-Beat, não foi diferente. O público era bom, mas somente aumentou com a Pato Fu, isto já na primeira hora da madrugada da quarta-feira, dividindo a atenção dos foliões com o show de encerramento do Carnaval no Marco Zero. Pato Fu fez o show que os fãs aguardavam (há cinco anos a banda não tocava no Recife), e mostrou, finalmente, por aqui, o repertório do CD Daqui pro futuro. As novas canções foram entremeadas com músicas conhecidas, como o sucesso Canção pra você viver mais e até Ando meio desligado, dos Mutantes. O Pato Fu refinou seu trabalho, e fez um show que merece voltar, para ser mais bem degustado em um teatro. A noite foi iniciada com o Bande Ciné, mais uma banda cover que começa a se dar bem no Recife. O grupo viaja pela chanson e o pop franceses de várias décadas. Entre as músicas apresentadas, Tu veux ou tu veux pas, fisgada do repertório de Brigitte Bardot, numa versão de Nem vem que não tem de Carlos Imperial, sucesso com Wilson Simonal, na fase pilantragem. A intenção é divertir, e o grupo diverte nas releituras que faz. A mineira Porcas Borboletas é um espelho da atual fase de transição do pop nacional. As bandas escancaram influências, mas não apontam nenhum novo caminho. O grupo é bem-intencionado, tem letras interessantes, com a de Um carinho com dentes, que cita Triste Bahia (poema de Gregório de Matos musicado por Caetano), mas o humor à Mutantes, feito em Cerveja, um “brega universitário”, já foi tantas vezes explorado que dificilmente funciona. Pelo contrário, na música de abertura, a insistente pergunta: “Você sabe qual é o seu horóscopo?” levou muita gente a procurar a resposta na rua da Moeda. Direto do Senegal, os irmãos Guissé foram a surpresa da noite. Sem fazer caras nem bocas, apoiados simplesmente na música, eles apresentaram, com Pato Fu, o melhor show da noite. Belas harmonias vocais, dois violões acústicos, e uma percussão caprichada. Curioso é que o folk do Les Frères Guissé remonta ao pop negro americano dos anos 50, que por sua vez tinham forte influência africana. Já o set de percussão de Aliou Guissé segue a arquitetura do set de percussão brasileira, arquitetado por Naná e Airto no final dos anos 60. É o bumerangue musical. O trio mostrou um sicronismo entre vozes e instrumentos de uma beleza e suavidade raras. Estes festivais precisam trazer mais grupos africanos ou orientais uma seara rica e inexplorada no Brasil. Lucy and the Popsonics faz um som urgente, que lembra a recifense Violeta de Outono (principalmente numa música chamada Estetoscópio). Pop indie inteligente, cuja temática é o pequeno mundinho em vivem os jovens antenados, pleno de signos voláteis, como Tamagochi ou Sharon Stone (citados em sua música). Papel higiênico cuidadosamente estendido sobre os pedestais de microfones, músicos de cabelos longos, alguns com dreadlocks (estilo rasta), trajados à vontade. Em nada a Orquestra Típica Fernando Fierro se assemelha a uma típica orquestra argentina de tango. E não é. No entanto se o visual é doidão, o tango vem da escola de Astor Piazzola, de quem eles tocam algumas composições. O estilo Piazzola foi revolucionário, mas já está devidamente absorvido pelo establishment musical. Os caras da orquestra são bons músicos, até porque o tango, assim como o frevo, não é um gênero para diletantes. Isto é inegável. No entanto, de um grupo que batizou seu disco mais recente de Mucha mierda, esperava-se mais irreverência.
Bom show, pouco público
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