Se forem vistos fora do palco, sem seus intrumentos, os integrantes da Orquestra Típica Fernández Fierro podem ser confundidos com uma banda de rock ou de reggae. Eles são jovens, vestem roupas coloridas, não usam terno e um deles tem até cabelo rastafari louro. Atualmente, contudo, são a principal banda de tango da Argentina, com shows lotados e público de todas as idades, mas a maioria entre 20 e 30 anos. Essa postura pop, no entanto, não os impede de tocar uma música tradicional, com respeito ao folclore, sem fusões entre ritmos ou concessões ao mercado. Eles começaram a carreira se apresentando nas ruas do bairro de Abasto, onde viveu Carlos Gardel, mas hoje possuem seu próprio clube de baile em Buenos Aires. Também já lotam casas de shows em São Paulo e Porto Alegre. A formação intrumental da banda respeita as tradições do clássico gênero musical argentino, com três violinos, quatro sanfonas, uma viola, um contrabaixo, um violoncelo e um piano. A Orquestra é a grande responsável por um movimento de revalorização festiva do verdadeiro tango, que atingiu um público antes mais habituado a consumir cultura de massa. No carnaval do Recife, são uma das atrações principais do festival Rec Beat, na noite de terça, antes do show de Pato Fu. Por telefone, o violista Juan Carlos (Charly) Pacini cedeu entrevista ao Diario e contou que nunca veio ao Brasil no carnaval. Vocês fazem música tradicional ou contemporânea? Ou uma coisa não impede a outra? Fazemos as duas coisas. Nossa música é tradicional na estrutura e na sonoridade. Nossa formação instrumental respeita o tango feito nas décadas de 1940 e 1950, mas nos comunicamos com uma linguagem contemporânea. Temos composições próprias e abrimos espaço para distorções, efeitos e ruídos. Mesmo assim, nosso som é totalmente acústico, sem nada de elétrico ou eletrônico. Essas experimentações que fazemos são proporcionadas pela própria natureza acústica dos instrumentos, apenas com a madeira e com as cordas. Chamamos de orquestra, mas somos um conjunto de câmara, com a formação instrumental básica do tango. Tocamos temas tradicionais clássicos, de grandes compositores, mas também fazemos nossas próprias músicas. Que diferença faz a orquestra ser formada por jovens? Vocês acham que fazem música pop? Alguns dos integrantes da orquetra recebem influência tanto do rock quanto da música tradicional folclórica, mas nunca vamos querer, por exemplo, acrescentar uma bateria na banda. Esse espírito jovem está no fraseado, nas intenções, nas nossas roupas e na irreverência. Queremos soar da maneira que gostamos de escutar. O tango, em seu auge, era música popular. Não somos pop em relação estilo e nem mercado, mas usamos recursos comunicativos que que vêm da cultura pop. A música é nosso trabalho, mas não a fazemos por dinheiro. Não temos interesse comercial. Queremos simplesmente nos expressar enquanto artistas. Por que vocês são considerados um grupo combativo? É por causa de alguma posição política? Somos 12 integrantes, cada um com suas idéias e vivências. Mesmo assim, temos uma ideologia, defendemos a independência, gostamos de fazer tudo de maneira cooperativa, sem muita heirarquia, sem misturar interesses artístico com outras concessões que não sejam musicais, pois não precisamos dever nada a ninguém, nem a governos e nem a empresas. Também gostamos de levar nossa música até as pessoas. Sempre fazemos concertos gratuitos, para públicos que não poderiam pagar ingresso, e procuramos visitar lugares novos, como antigas fábricas, para chamar atenção para a situação desses locais. Defendemos o poder de iniciativa, somos contra o comodismo. Nossa causa é a cooperação. Como vocês entendem o tango? Para nós, o tango é um acontecimento social, um ritual que envolve música, dança, bebida e festa. São várias linguagens artísticas ao mesmo tempo. Somos bastante independentes em relação a isso. Não dialogamos muito com os músicos mais antigos, que tocam para públicos que aquerem apenas ficar sentado ouvindo. Aquilo é muito elitista. Também não gosto dessas misturas que fazem com outros tipos de música, mas respeito quem gosta. Apenas não me identifico. Tocamos para públicos de várias gerações, desde adolescentes até pessoas com mais de 60 anos de idade, mas a maior parte das pessoas que nos ouvem estão na casa dos 20 e poucos anos. São jovens que provavelmente nunca estariam ouvindo tango se não fosse a Orquestra Típica Fernandez Fierro. Voltar
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