Tudo começou em 1993 no Franc’s Drinks, um antigo puteiro localizado no centro de Recife. Batizado de Projeto RecBeat, o evento, idealizado pelo produtor Antônio Guitierrez, o Gutie, reunia bandas locais com o intuito de divulgar o som que estava surgindo na época na capital pernambucana. Logo depois, o que parecia ser apenas um inferninho underground ganhou outro desdobramento e se transformou em um dos maiores festivais de música do país. Hoje, o RecBeat, que sempre tem início no sábado de Carnaval, chega à sua 13ª edição e leva ao palco cerca de 30 atrações de várias partes do Brasil e do mundo, inclusive com a participação de duas bandas mineiras, o Porcas Borboletas, de Uberlândia, e o Pato Fu. "O RecBeat nasceu com o objetivo de divulgar bandas novas. Nação Zumbi, Lenine, Mundo Livre SA, Eddie... Todas essas bandas passaram pela gente e hoje rodam o país", conta Gutie. Paulista de Bariri, Gutie, 47, aportou em Recife no final da década de 80 como correspondente da "Gazeta Mercantil". O que aconteceu em seguida foi fruto de seu senso de oportunidade aliado a um ambiente profícuo musicalmente, fomentado pela onda do mangue-beat. Foi então que ele teve a sacada de dar mais visibilidade a esse movimento. Iniciativa para tanto não lhe faltava. "Desde os meus 16 anos, quando ainda morava em Bariri, eu já organizava festas. Com 18, passei a gerenciar uma discoteca. Passei toda minha adolescência fazendo festas e organizando eventos", comenta. Assim, o que parecia brincadeira, com a maturidade se tornou uma profissão. Carnaval musical Gutie lembra que, quando o RecBeat começou, o Carnaval em Recife estava sem visibilidade e ficava em segundo plano devido à folia em Olinda. Inclusive, depois da primeira edição, o evento passou a ser feito em Olinda. "Era lá que as pessoas estavam, então não fazia sentido continuarmos na capital", revela. Em 1999, a situação começou a mudar quando ele recebeu um convite da Secretaria de Cultura de Recife para realizar o evento novamente no centro antigo da cidade, mais precisamente na rua da Moeda. Para a secretaria, a volta do RecBeat fazia parte de uma estratégia que visava estimular o Carnaval local. Para Gutie, foi a oportunidade de ter um patrocinador fixo cujos interesses eram os mesmos que os dele. Tal parceria permitiu que ele ampliasse o festival para muito além do Estado. Se antes o RecBeat já havia revelado muitas bandas pernambucanas, com o tempo essas bandas ganharam o país e o festival passou a abrigar grupos de outras regiões. O evento se tornou uma grife e o fato de tocar no RecBeat virou motivo de orgulho para os músicos que passavam a ter um aval de peso. "Ajudamos a construir a cena musical de Recife. Se hoje todo mundo conhece nomes como Mestre Ambrósio, DJ Dolores, Nação Zumbi, Mundo Livre SA, fomos nós e o Abril ProRock que ajudamos a abrir esse caminho. Assim, Recife ganhou fama de ser um pólo de boa música", explica Gutie. Como resultado, houve uma valorização muito grande da cena pernambucana. Para se ter uma idéia, de acordo com Gutie, hoje fica mais barato trazer gente de fora para tocar no festival do que pagar o cachê das bandas locais. Por outro lado, uma vez que as bandas pernambucanas já se viram sozinhas, o palco se abre para uma diversidade de ritmos e gêneros. Nesta edição, em particular, há atrações tão distintas como a "Metaleira da Amazônia", uma versão metal (trombone, sax e trompete) dos Mestres da Guitarrada, e o guitarrista de ska canadense Chris Murray, que fará apresentação conjunta com a banda paulistana Firebug. "Na sua essência, o RecBeat visa acrescentar algo na carreira de um grupo. Então não faz sentido convidarmos bandas já afamadas. O Pato Fu é uma exceção, pois está com um trabalho independente na praça", comenta Gutie. Por esse motivo, há três anos o produtor resolveu que nenhuma banda se repetiria no palco. Para tanto, ele virou freqüentador assíduo de festivais Brasil afora para ver o que de novo estava acontecendo. "Eu mesmo faço a curadoria do festival. Esse ano, por exemplo, abrimos o palco para bandas latinas. A tendência é do festival se ampliar cada vez mais e trazer bandas alternativas de fora do país", analisa. Originalidade Tudo isso visa manter o compromisso com o público que, por sua vez, já sabe que vai encontrar novidades e não as mesmas coisas de sempre. "Hoje o RecBeat recebe mais de 10 mil pessoas por noite. O público já entendeu que a nossa proposta é a diversidade. E por isso temos a responsabilidade de apresentar bandas novas, assim como grupos tradicionais que estão há anos na estrada", analisa Gutie. Ao contrário de Salvador, por exemplo, a cena musical de Recife não é dependente de modismos e de marketing intenso, mas, sim, de uma estabilidade e de uma credibilidade difícil de ser encontrada. "A grande característica do ambiente musical de Recife é que, aqui, existe um acordo tácito entre as bandas em que ninguém pode repetir o que outro está fazendo. Se uma banda está fazendo um tipo de som, por questão de honra, a outra não faz o mesmo. Não existe essa necessidade de se copiar. E isso se reflete nos festivais. Se você pegar as programações dos dois maiores festivais daqui, o RecBeat e o Abril Pro- Rock, você vai perceber que as atrações são totalmente diferentes". Devido a esse ambiente rico, na última década, segundo Gutie, o Carnaval de Recife ganhou uma dimensão incrível. "Uma coisa bacana é que essa gestão da prefeitura, sem querer ser chapa-branca, valorizou muito o artista. Além do palco do RecBeat, a prefeitura criou vários palcos periféricos que agitam toda a cidade", revela. "Assim, podemos encontrar em plena terça-feira de Carnaval uma banda do gabarito do Cordel do Fogo Encantado se apresentando em plena periferia da cidade. Em suma, nos últimos anos, ’o Carnaval de Recife está se nivelado por cima’", conclui o produtor. Voltar
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